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Marie Claire Brazil

Loucas Baladas De Moscou

Embalados a sexo, drogas, dinheiro e poder, homens ricos e mulheres lindas encenam um excitante, mas perigoso, jogo de sedução nos clubes mais fechados e exclusivos da capital Russa.

mp3Interview: СИТИ-FM Moscow(3748 kb)

O IATE QUE JA FOI de Stalin sobe o rio Moscou. São 8 da manhã e a festa simplesmente não pára. Ne pista de dança montada no barco, rapazes russos se divertem. A música jorra de alto-falantes de 2 metros de altura fazendo vibrar os corpos das garotas vestidas com modelitos Valentino, Gaultier e Bulgari, que dançam com um olhar desafiador. Homens cheios de dinheiro, donos de uma elegância recém-conquistada, andam pelas laterais do navio ostentando sorrisos satisfeitos, olhos calmos brilhando por trás de óculos de sol de milhares de dólares. Eles podem te beijar, mas também podem matar.

Esse é, de fato, o antigo barco de Joseph Stalin, o “Maxim Górki,” destinado aos prazeres proibidos do partido na época comunista. Agora, tornou-se o ápice da noite vip de Moscou, desfrutada apenas por quem tem conexões certas e imaginação fértil. Um manequim com o rosto de Stalin está sentado numa imitação do escritório do ditador. Duas garotas de 20 e poucos anos, que perderam qualquer noção de limite, tropeçam nas cadeiras, enquanto se devoram com o olhar. Logo, os tops são tirados, elas começam a se beijar e o chão treme com o barulho do motor original de 1934.

Do lado de for a, uma lancha no acompanha: no leme, de pé, éstá um homen de cabeça raspada. Ele sorri. É Aleksei Goróbi, que levanta os olhos e observa, de longe, território que é só seu: a noite de Moscou. Ele traz 20 garotas do Óssen, uma de suas casas noturnas em terra. O clube é apenas um entre os vários points que Goróbi e seus sócios possuem na cidade—Moscou tem hoje uma das mais fascinates cenas noturnas do planeta. Esqueça a etiqueta e a moderação. Para essa nova geração, que esta na faixa dos 30 e tem muito dinheiro, o que interessa é celebrar. Dificil é acompanhar esse ritmo. Moscou é uma espécie de inferno, e no inferno você pode se divertir pra valer.

Goróbi e seus associados criaram um tipo de vida noturna que provoca inveja nas cidades mais baladeiras do mundo. Há 15 anos, não havia um único clube desse gênero na major capital da Europa. Então, em 1992, o capitalismo passou a dar as cartas, e tudo mudou. Hoje, frequentar os clubes controlados por Goróbi e seus dois amigos, Mikhail Kozlov e Sinicha Lazarévitch, significa ter acesso a um mundo exclusivo, cheio de conforto e regalias. Por isso mesmo, não dá para ignorar o poder desses três homens.

FAÇO UMA VISITA ao Óssen para conhecer o reinado de Goróbi em terra firme. Já é madrugada e Goróbi se retira para o quarto reservado que mentém alguns andares acima da pista de dança. Seu refúgio é cheio de telas de plasma e candelabros baixos. Ele veste uma camisa branca e nada mais. A mulher deitada sob ele tem diamantes no olhos e chiclete nos dentes. Um andar abaixo, as go-go girls misturam glitter com óleo hidratante nas mãos. Num movimento sensual, elas espalham essa mistura sobre as peles bronzeadas: a idéia é refletir as luzes que pulam na pista de dança. Nas escadas, uma dúzia de meninas que parecem modelos, usando botas de cano alto, sussuram versos eróticos.

Goróbi, hoje com 37 anos, começou a ganhar a vida gerenciando bandas que tocavam em casamentos. Um dia, resolveu dar uma festa no Pavilhão Cosmos do parque VDNKh. Ele montou algumas luzes, ligou o toca-discos e viu os clubbers irem a loucura entre falsos motores de foguetes e outros lixos espaciais. Milhares de passoas freqüentavam essas festas, que foram, de fato, as primeiras raves da Rússia. Goróbi não ganhava nada com isso, mas se divertia bem mais. Em 1993, depois do sucesso dessas raves espaciais, ele chamou alguns sócios e abriu sua primeira casa noturna em Moscou, chamada Penthous. Com o sucesso do empreendimento, outros promotores se animaram, novos clubes foram abertos. Nos anos seguintes, Moscou cresceu alucinadamente para todos os lados. Jipes americanos e ternos feitos sob medida ganharam as ruas (veja quadro).

POUCO DEPOIS DE ABIR seu primeiro clube, Goróbi e seus colegas tiveram uma idéia simples, mas efetiva: nao deixe o seu clube sair da moda, nunca. Planeje o próximo clube enquanto o público ainda está lotando o primeiro. Depois de seis meses, feche a casa noturna original, ainda no auge, e abra a seguinte. Seguiram o plano a risca. Goróbi, Kozlov e Lazarévitch abriram a Zimá (“inverno” em russo), fecharam alguns meses depois e abriram a Liéto (“verão”). Em seguida, veio a Óssen (“outono”). Depois de uma breve pausa, Goróbi e parceiros abriram seu maior clube, o Diaghilev.

O império de Goróbi criou uma figura lendaria na noite russa: Pacha, o homen a quem todos querem agradar. Ele é o responsavel pela door policy (ou face control, como os russos a chamam): é ele quem barra ou deixa passar as centenas de pessoas que se aglomeram todos os dias na porta de Óssen. Pacha se tornou notório por impedir a entrada na casa de celebridades e políticos conhecidos. Certa vez, o rei do carvão russo desceu do seu Bentley exibindo um relógio de US$ 500 mil. De nada adiantou. “O mais importante é quem você é,” diz Pacha, que já virou até tema de música. Nos últimos dois anos, uma cançao chamada “Pacha Face Control” tocou sem parar nas radios russas: na letra, Pacha censura as garotas que oferecem sexo em troca da entrada numa boate. O temido leão-de-chacara não revela o nome completo, com medo de represalias de gente que foi rejeitada.

Mais uma noite, mais uma festa. É véspera da Páscoa quando o tenista russo Marat Sáfin entra no campo de visão de Pacha. Chega acompanhado por quarto garotas e armado com uma dezena de pílulas escondidas nas meias. Ele passa pelo crivo de Pacha, mas pára no engarrafamento na porta. Lá dentro, nas mesas vip, Karina, da cidade de Volgagrado, comemora seu aniversario. “Todas essas garotas vêm a Moscou tentar a sorte.” Diz, olhando para o mar de mulheres embaixo, muitas das quais percorreram grandes distâncias para cacar petroleiros a banqueiros. Muitas têm ate um bom emprego. “As meninas que vêm aqui procuram um cara que dê de presente US$ 10 mil na conta.” Karina sacode o cabelo louro. “Eu nao. Quero mesmo é faturar US$ 10 milhões.” Nas balades de Moscou, a idéia de igualdade de gêneros passa longe. Ao contrario, elas fazem de tudo para realçar seus atributos e exercer seu poder de sedução. “Gosto que cuidem de mim,” diz Dúnia Grónina, dona de uma loja de acessórios chiques.

ENCOSTADO AO BAR em forma de ferradura está Mikhail Kozlov, de echarpe de seda e paletó de veludo escuro. Kozlov, 40 anos, foi professor de história durante sete anos antes de conhecer Goróbi, num show de Michael Jackson, em 1993. Hoje ele supervisiona as mesas vip, que podem custar até US$ 15 mil por noite: seu trabalho é paparicar clientes que ganham US$ 15 milhões por mes. Kozlov trata esses novos ricos com a dose certa de intimidade. Todos entram no jogo. “É importante que o cliente rico suspeite qeu há alguém mais rico sentado ao seu lado,” revela Pacha. “Existe essa competição.”

As luzes pintam todas as pessoas de preteado—os sujeitos ricos ou as garotas qeu farão de tudo para seduzilos. O relações públicas do homem mais rico da Rússia (Roman Abramóvitch, fortuna estimada em US$ 25 bilhões) fica paralisado diante da perna untada de óleo da bailarina que danca num pedestal bem atrás de sua esposa. Uma das cantoras da dupla russa Tatu surge usando óculos de sol. Ninguém a reconhece. Da mesma forma, não houve comoção quando Elizabeth Hurley deu as caras por lá. O superstar Will Smith precisou subir nas mesas com um microfone para chamar a atenção. Coisas tolas como a fama não têm importancia em lugares que levam a diversão a serio, como Moscou.

O DJ Dam, sem camisa, comanda as pick-ups apenas com uma mão; o outro braço esta levantado no ar, regendo a animação dos clubbers. Ele contra sobre o famoso episódio do trem. No ano passado, um grupo de promotores armou uma grande festa no trem que ia de Moscou para São Petersburgo. A festa durou oito horas, depois foi transferida para um barco, depois para um restaurante, depois para um clube, e de volta para o teem. “Quando chegamos a Moscou, os clubbers ainda estavam dançando e não queriam sair,” conta Dam. Algumas pessoas, diz o DJ, haviam se encarregado de colocar ecstasy ne bebida.

Mais um fim de semana, mais uma balada. Esta noite, coelhinhas de rosa e branco sobem ao palco do Óssen, substituindo uma dúzia de garotas de lingeries mínimas. É assim que Lazarévitch celebra seu aniversario. O empresário russo Igor Artukh relaxa em sua mesa habitual com uma amiga em vestido de lantejoulas, enquanto um garçom serve conhaque. Antigamente, era facil para os americanos ganharem as russas: eles eram charmosos e tinham dinheiro. Os rapazes russos ainda não aprenderam a ser charmosos, mas ficaram ricos. No banheiro, você não sabe se aquele zumbido insistente é musica, o efeito das caixas de som na sua cabeça, ou o cellular do vizinho, com um traficante de drogas oferecendo sua mercadoria.

Antes do amanhecer, saio um pouco na rua para tomar ar. É o Dia da Vitória [feriado que comemora o fim da Segunda Guerra Mundial], e um homem de cabelos broncos se arrasta pela rua Tverskáya com o peito forrado de medalhas. Fogo de artifício estouram no céu. Um cachorro vadio lambe a placa de um carro. É uma surpresa descobrir que a chuva caiu a noite toda.

As portas espelhadas do Óssen se abrem e um homem sai voando, caindo de costas na calçada. Um hematoma se forma em seu olho e o sangue escorre da sobrancelha. É hora de voltar para o clube. Subo ao camarim das dançarinas. Lá está Gulliver, o promoter mais versatile de Moscou, que teve participação importante no empreendimentos do trio da noite. Sentado entre dançarinas seminuas, Gulliver aponta as mulheres que já dormiram com ele. “Ainda não estou satisfeito,” sorri, depois de apontar para uma dançarina com uma peruca de Maria Antonieta. “Quanto mais você tem, mais você quer.”

HORA DE VOLTAR ao “Maxim Górki,” para mais uma festa exclusiva. Quem me recebe, a frente dos marinheiros, é o homem conhecido como General. Há muitos boatos sobre ele. Dizem que ele reolve qualquer tipo de problema, não importa o tamanho ou a complexidade. As festas do General são tão exclusives que quase ninguém fica sabendo quando elas acontecem. E aqui estou eu. Embarcando num mundo sem regras. Lá dentro há belos tapetes, muito crystal e muitas mulheres.

Como sempre, existe uma seção vip: lá embaixo, numa sala onde dignatarios do governo já passaram a noite, homens e mulheres se divertem nus. Tamerlan, de Vladikavkaz, no sudeste da Rússia, está sentado num canto com uma mulher de pink no colo. “Eu tinha orgulho de ter nascido na Uniao Soviética,” diz. “E agora temos toda essa merda,” diz rindo. Algumas garotas, com roupas que custam tão caro quanto um carro, cantam uma rima infantile: “Sou uma garontinha/Eu não vou a escola/Se você me comprar sandálias/Eu caso com você.” O General aparece ao seu lado, um sorriso confiante nos labios. “Você está conhecendo as melhores pessoas de Moscou,” ele me diz. O “Maxim Górki” sai lentamente do porto, a música explode e uma loura, que tem tudo o que um homem pode desejar, poe as maos sobre a meu peito. “Sou atriz,” diz, “mas por dentro sou virgem.” E o barco segue o seu caminho, deixando para trás todos os que já perderam a chance de embarcar, e vao continuar perdendo.